1ª Revista Eletrônica
de ORL do mundo

ISSN 1516-1528
 
18 

Ano: 1997  Vol. 1   Num. 2  - Abr/Jun - (8º)
Seção: Artigo Original
 
Exame por Ressonância Magnética Submilimétrica do Osso Temporal na Doença de Ménière.
Autor(es):
1Maria Cecília Lorenzi
RESUMO

Os autores lembram que a etiologia da Doença de Ménière (D. M.) ainda não foi estabelecida e destacam um dos principais fatores aventados: a presença de Ductos Endolinfáticos (D. E.s) encurtados e estreitados quando comparados a ductos de indivíduos normais.

Citam-se estudos anátomo-patológicos e outros trabalhos com métodos de avaliação por imagem que já demonstraram em casos de D. M. a presença de estreitamento e encurtamento do D. E., que seria a base da gênese da hidropsia endolinfática retrógrada e, conseqüentemente, dos sintomas clássicos observados.

Foram estudados 12 pacientes portadores de D. M. unilateral (3 pacientes do sexo masculino e 9 do sexo feminino, com idade variando entre 18 e 65 anos) e 11 controles normais (5 de sexo masculino e 6 de sexo feminino, com idade entre 23 e 64 anos).

Os parâmetros avaliados foram a capacidade de visualização do D. E. e a distância entre o canal semi-circular posterior e o labirinto e o espaço subaracnoideo.

Os exames por Ressonância Magnética (R. M.) foram realizados em aparelho Sigma, 1,5 Tesla, da G. E., com cortes axiais de 0,7 mm de espessura. Todas as imagens obtidas foram avaliadas independentemente por 2 neurorradiologistas.

Quanto aos resultados obtidos, os D. E.s puderam ser visualizados em 7 (29%) dos 24 ossos temporais de pacientes portadores da D. M. Note-se que não houve diferença estatisticamente significativa no que diz respeito à visualização do D. E. das orelhas sintomáticas e assintomáticas nestes pacientes. Quanto ao grupo controle, houve visualização do D. E. em 20 (91%) dos ductos avaliados. Além da menor taxa de visualização do D. E., as medidas dos ossos temporais também se revelaram menores nos pacientes portadores da D. M.

Correlação muito interessante foi observada entre boa resposta ao tratamento cirúrgico e boa visualização do D. E. à R. M. Cinco (5) pacientes estudados foram submetidos a "shunt" endolinfático, após a realização do exame por R. M. Dois (2) destes pacientes apresentaram alívio importante dos sintomas após a cirurgia e, coincidentemente, estes pacientes apresentaram D. E.s visíveis bilateralmente. Os demais três (3) pacientes, que não apresentaram D. E.s visíveis à R. M., tiveram resposta muito pobre ao tratamento cirúrgico.

Os autores concluem quanto à presença de menor grau de visualização do D. E. em portadores de D. M. correlacionando-a à presença de ossos temporais de menores dimensões na região estudada. A relação observada entre resposta ao tratamento cirúrgico e visualização do D. E. à R. M. deve ainda ser confirmada em estudos com maior número de pacientes.

COMENTÁRIO

Iniciamos este comentário ressaltando um aspecto pertinente muito interessante. Ao nos depararmos pela primeira vez com o tema "Ressonância Magnética na Doença de Ménière" quase que instantaneamente imaginamos que finalmente se pôde observar "in vivo" a presença de hidropsia, com visualização de certo grau de alargamento das estruturas do labirinto membranoso. Isto finalmente resolveria o enorme problema que o diagnóstico da Doença de Ménière é até os dias atuais. Percebemos, então, que os achados observados não têm qualquer relação com a avaliação direta da presença de hidropsia. Assim, a validade da realização do exame por R. M. em portadores de D. M. não é tanto diagnóstica quanto prognóstica (embora seja importante para afastar alguns dos principais diagnósticos diferenciais). Além disso, os achados descritos quanto ao D. E. na D. M. enfatizam a importância de fatores genéticos e de desenvolvimento do osso temporal com relação à etiologia do distúrbio.

Este estudo, embora realizado em série pequena de pacientes acometidos pela D. M., confirma os achados anteriormente descritos de que se observa na D. M. a presença de D. E.s estreitos e encurtados, quando comparados a indivíduos normais, tanto nas orelhas sintomáticas quanto nas assintomáticas. Acredita-se que esta variante de desenvolvimento, gerando estrutura de drenagem anatomicamente menor em tamanho, funcionaria como fator predisponente junto ao qual inúmeros outros fatores poderiam atuar, gerando hidropsia endolinfática retrógrada e a conhecida sintomatologia.

Estudo mais detalhado a este respeito vem sendo realizado em nosso Serviço, em colaboração com o Departamento de Ressonância Magnética do HC-FMUSP. Avaliando-se maior número de pacientes e indivíduos normais como grupo controle, pretende-se estabelecer o grau de visualização do DE nas várias décadas da vida, correlacionando-se os achados observados com o tempo de evolução nos casos de presença da doença.

1- Médica Assistente da Clínica Otorrinolaringológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
 
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